O olho do dono: Ivan de Almeida.

Uma foto feita no meio de uma grande brincadeira, assistir a Orquestra Voadora em São Pedro da Serra. Divertia-me muito, a música tocava, nós todos nos saculejávamos, e ouvindo. No meio disso, com uma única lente na câmera, como sempre faço (lente mecânica e velha, sem eletrônica nenhuma), eu fotografava. Meio que chovia. Não muito, mas chovia um pouquinho, às vezes mais. Felizmente mais foi no final disso. Como faço nesses casos, não fiquei regulando a câmera para todas as fotos, porque em dia muito fechado a luz varia pouco. Tirei uma primeira foto fotometrando pela câmera, olhei, vi o quanto tinha de mudar a exposição e sempre na mesma abertura e velocidade fotografei, só acertava o foco e compunha, e esse “compunha” era rápido enquanto me sacudia com a música, parando só um pouquinho para fotografar. Gostei do resultado, ficou de cor viva, esta ficou com boa composição, no meu julgamento. Ele quase centralizado e com uma perna apontada para o canto, além do painel de uma tenda de uns mágicos que antes se apresentaram lá atrás, que com sua horizontalidade e cantos caídos fecha a cena em cima com amarelo em cima e embaixo (calças). Eu mais brinquei do que me preocupei em fazer fotos para serem bem vistas, mas várias ficaram boas. Esta é uma das que mais gosto, e a de forma mais definida e harmônica com o formato 3:4 do sensor.

O Quadrado da Urca, um lugar muito interessante do Rio de Janeiro, na saída da Urca no sentido do trânsito -numa das duas saídas maiores. Lá há um quadrado ligado à Baía de Guanabara e nesse há um local de muitos barcos pesqueiros. Há muitos anos comecei a ir lá para, da primeira vez, experimentar uma lente que comprara. Depois disso muitas vezes pego a bicicleta e vou lá, cada vez com uma lente (manual e mecânica e de 30 anos ou mais) meio que experientando todas ou me divertindo, o que me força a compor diferente da última vez que fui. Creio que essa foi com uma Mir 20mm que não tenho mais numa Canon 20D, pelo ângulo incluído e por ser dessa época em que tinha a lente.

Minha visão desta fotografia é que ela aparentemente figura os barcos, mas na verdade sua força é a disposição dos elementos nela, caracterizando uma espécie de diagonal curva que vem descendo (não subindo, perceptivamente) do quarto superior direito para baixo, para o canto inferior esquerdo onde termina num meio barco. Observando o olhar no exame da foto, isto é, como ele se comporta nela (o comportamento do olhar é o fundamento da composição, a composição determina um comportamento do olhar e em cada foto é um) reparo que ele a interpreta como uma diagonal curva da parte superior direita à parte inferior esquerda, e que os 3 barcos mais próximos são verdadeiramente aquilo examinado ao vermos. O olhar começa no barco central encabinado, para o qual contribui o outro logo acima, mas sem atrair tanto exame, de depois o olhar desce para a esqueda, para os outros dois, um deles também retendo o olho e o outro conduzindo o olho ao final e quase fazendo o olho continuar para fora da foto (porque o barco é interropindo pelo limite inferior do retângulo). Tirando esses quatro barcos, especialmente os 3 mais próximos, todo o resto é cenário compositivo e o olho não se prende ao resto. Do resto, a coisa mais forte compositivamente é um mastro de um barco que já nem figura inteiro e que apontando para o canto direito superior -não exatamente- ajuda a dar ali ao observador a sensação de final do assunto, apesar dele continuar em pedaços de barcos até o canto. O resto, água, e coisas lá longe não contam muito para o funcionamento dela para o olho.

Há muito tempo não prestava atenção nesta foto, foi bom agora vê-la e analisá-la.

Minha mulher na nossa casa da serra. A foto, como “obra”, é uma obra dentro de uma obra, porque a casa é também uma grande brincadeira-projeto meu, baseada numa planta hexagonal o que faz as janelas grandes ocuparem dois lados desse hexágono. Minha mulher cozinhava na cozinha, que não é um compartimento, mas um canto do espaço-sala a ele integrado e dele separado por uma mesa de ardósia polida cortada curva, curva complexa e não só a ponta curva (o corpo é curvo também em direção à cozinha). Fiz dela um molde de papelão no tamanho igual para que a ardósia fosse cortada igualzinha, pois era forma complexa. A foto mistura as luzes, a luz externa e a luz interna de lâmpadas incandescentes, muito amarelas. Não foi preparada, há uma garrafa de vinho na frente, há tomates lavados sobre a mesa. A garrafa de vinho oculta um pedaço da minha mulher. Contudo, tudo isso, que poderia ser visto como defeito esse ocultamento, para mim tão somente torna tudo mais doméstico, mais natural. Não arrumei nada para a foto, só a fiz. Um resultado que mostrasse uma espécie de intimidade de uso do espaço, de naturalidade, de estética de vida tanto quanto estética da foto. A cabeça da minha mulher tampa outra lâmpada incandescente num spot fixado na parede. Sua expressão é calma e atenta. A garrafa de vinho a oculta parcialmente, mas isso faz a garrafa de vinho ser mais evidente, ajudando a contar a história do modo de vida ali. É uma foto calma, como calma é nossa estada lá. Há muito tempo não a via ou buscava ver. Gostei de vê-la de novo, é como ver minha vida sob aspecto estético da foto e sob aspecto estético do modo de viver lá.

Também em São Pedro da Serra, e também com a Mir 20M e a Canon 20D. Saíra andando pela cidade, ou melhor, de carro para ir relativamente longe, se precisasse. Saí para fotografar. Mas passei, no fim da área mais densa da cidadezinha, por uma espécie de garagem de caminhão para transporte de produtos agrícolas, garagem que tem a casa do dono sobre ela, e pela porta aberta vi uma coisa ótima: pessoas descascando inhame para colocá-lo em sacos e ele descer para venda no Rio de Janeiro. Saltei, aproximei-me, entrei e pedi para fotografá-los. Não sei bem explicar, mas faço isso de tal forma que pouca gente fica nervosa ou em postura artificial. Eram três trabalhando, deixaram-me fotografar. Comecei a conversar com eles e fotografar, sem pedir nada a eles, nenhuma mudança, nada.

Esta foto é uma composição de que gosto, ele na lateral direita define o enquadramento quanto à altura e os inhames definem a lateral. Em cima do inhame há os sacos de remessa que servem de moldura da cena. Esta é uma foto com tratamento muito minucioso, do monte de inhame para aumentar a visibilidade e o contraste, do limpador para idem, cada parte tratada em separado. A foto eu gostei, mas não apenas isso como achei que poderia obter dela uma narrativa mais forte, reforçando cada parte formalmente e significativamente importante.

A luz não foi inventada no tratamento, é a luz que entrava pelas janelas laterais e iluminava desse jeito, mas foi dada ênfase a ela em certos lugares. É também uma composição calma e natural, tenho a tendência a não buscar composições que visualmente mostre as coisas de forma desnatural, composições que são boas e evidentes mas desnaturalizem o retratado eu não pratico geralmente. Tento mais ser um fotógrafo que extrai do que ocorre naturalmente uma composição não desnatural, não exagerada, não implausível mesmo que forte visualmente.

Esta é uma foto de um projeto. Um projeto nascido por uma prática meramente divertida, mas desenvolvida depois a partir de potencialidades nela identificadas, de modo que, depois de certo tempo, aquela prática tornou-se governada por algo que eu queria, queria e concebera ao longo do tempo, e não pela brincadeira.

Tudo começou há muito tempo, há uns 9 anos. Com uma compacta digital, a primeira digital que tive, comecei a fazer, nos fins de tarde sozinho em casa, pannings dos veículos que passavam na frente da janela da sala. Comecei com uma Canon A30, câmera que só em ISO 100 funcionava decentemente. Por isso, a velocidade era tal, era tão baixa que não dava para fazer o panning clássico, e isso não me aborreceu, ao contrário, passei a buscar uma estética possível, isto é, uma linguagem adequada. Passei a construir um jogo em que o panning escorrido era desenvolvido esteticamente. Desde o filme, desde bem antigamente, eu sabia fazer panning, era uma técnica não desconhecida embora menos explorada porque no panning há uma margem de erros e acertos, isto é, nem toda foto sai boa.

Nesse 9 anos aconteceu comigo algo interessante… Do pannig qualquer fui percebendo interessantes possibilidades narrativas. E possibilidades decorrentes do borrão gerado por pannings muito lentos. Com filme já fizera com 1/40, por aí, mas na digital e limitado pelo ISO cheguei a fazer com meio segundo. Ora, o efeito era outro.

Fazendo da sala, nos fins de tarde em que estava sozinho em casa sem outra coisa para fazer, a exploração do assunto foi aumentando e surgindo possibilidades criativas antes não pensadas e pouco comuns (tem coisas que nunca vi em outros locais, como a abordagem dessa foto, por exemplo). Há uns cinco anos, talvez, comecei a me interessar pelo interior dos ônibus que passavam. Talvez seis ou sete anos, aliás. Fazia o panning com ônibus que passavam em frente, em velocidade bem baixa e tele mais longa para capturar as cenas no interior deles, mas o panning descaracterizando as pessoas suficientemente pois o escorrido da baixa velocidade era em certo grau desejado para elas não poderem dizer serem fotos delas e para gerar uma estética específica. Cada vez mais me interessei pelas cenas interiores dos ônibus, meio de transporte no qual há várias pessoas num compartimento mas cada uma está sozinha, pensando, entregue a si mesma.

Num determinado momento comecei a fazer fotos disso como uma série. Não como uma ou duas, mas como construção de uma narrativa que numa foto seria interessante e em uma exposição-projeto com várias daria unidade a todas e as faria juntas dizerem mais gerando uma forma de ver. Esta não é das iniciais, é da fase na qual eu comecei a separar melhor as cenas internas a entender melhor o que eu queria nelas. Esta série é um projeto permenente meu, e vou desenvolvendo sem pressa e sem a ele exclusivamente dedicar-me.

O olhar da passageira, que parece olhar para nós mas não é possível porque pela velocidade do ônibus e porque fotografava com a sala de luz apagada e não era possível me verem, dá à foto uma mensagem muito instigante. Nesse processo temos um aproveitamento baixo em relação ao número de fotos, Esse aproveitamento é um pouco melhor caso só estejamos interessados no efeito visual, mas no meu caso sou interessado na significação da cena caputrada, então em um dia com 30/40 fotos, se uma me atender completamente, ótimo. Conseguir fotos assim não é mágica, é resultado de uma dedicação constante em tempo e de uma seleção entre o conseguido no dia. Meramente visual é claro que são muito mais, mas assim, significativa em termos humanos, são raras entre todas e relativamente impossível de planejar. Os ônibus passam rapidamente e só quando os seguimos com a câmera no olho vemos o interior. Não dá para decidir neste momento se apertarei ou não o botão. Sempre aperto. O que dá para decidir, e é uma decisão tão rápida que é quase mágica, é o que dentro do ônibus merece mais o click e também o enquadramento da parte (esta foto não tem corte algum, é assim de nascença)

Essas fotos são depois muito tratadas, porque a técnica torna os contrastes baixos e as cores pálidas. O tratamento é por partes, para reforçar o desenho e a mensagem, e não no todo. Tento reforçar a mensagem que a fotografia contém, não apenas cores e contrastes dela.

Pedra Aguda. Já não fica em São Pedro da Serra mas no município vizinho embora pertíssimo de São Pedro da Serra, aliás essa estrada e esse ponto em que estava é o limite de 3 municípios, praticamente, quase ele. Este é o ponto onde a montanha distante, que possui desenho, digamos assim, é vista com certa limpeza, pois abaixo do local da foto há um vale e esse vale limpa o fundo, deixa a paisagem livre. Porem, e aprendi isso refletindo sobre minhas fotografias há uns oito anos atrás, e refletindo por fotografias de paisagem feitas exatamente lá em São Pedro (sempre saio de carro ou a pé só para fotografar, cada vez num rumo, quando vou lá) e agregando a isso uma observação das fotografias do Ansel Adams, entendi que a paisagem do fundo quando fotografada sem algo interessante em primeiro plano torna-se maçante e sem graça. Em fotos do Ansel Adams é bastante comum o diálogo entre coisas no primeiro plano e no fundo. O leigo, ou o fotógrafo que nunca pensou sobre isso é levado a achar que a fotografia é da coisa do fundo, a montanha, sei lá o quê. Mas na verdade a fotografia não é uma coisa que nela aparece, mas sim uma construção de imagem, a fotografia não é “da montanha”, mas sim uma construção visual na qual a montanha é um dos elementos e ao leigo parece ser o objeto e motivo da foto.

Muitas vezes pego esta estrada e busco aglum primeiro plano que seja bom para fotografar esta vista desta montanha, vista que domina o centro do vale. Busco um primeiro plano bonito, um primeiro plano com formas interessantes. Nesta a árvore em primeiro plano, pela sua rugosidade, pela delicadeza do ramo de folhas, pela forma como ela emoldura a montanha relacionando-se fortemente com seus ângulos foi o que busquei nas fotos que fiz ali. Como são fotos feitas sem zoom, essa busca não é mudando o comprimento focal, mas sim mudando a posição do tripé, indo para a frente, para trás, para os lados, buscando com isso que o primeiro plano seja o forte e esteja forte na composição. Na verdade é isso que faz a fotografia, e não o fundo. Escolher o ponto do qual fotografo, digamos, numa esfera de 10 a 20 metros, andando para lá, para cá, olhando pelo visor e concebendo a relação entre primeiro plano e a paisagem que parece a muitos ser o motivo da foto. A foto não é uma paisagem, ou melhor, é, mas é principalmente uma concepção criativa, uma concepção compositiva. Lembro-me desta seção, lembro-me embora tenha sido há bastante tempo, pelo menos 4 anos atrás. Lembro-me da delícia que é ficar num local sozinho e entretido em pensar as composições, em pensar como construirá a fotografia, andando para frente a para trás na estradinha, andando até o barranco atrás ou para um lado e outro, movendo a câmera um pouquinho num ângulo ou no outro. Esse emolduramento que o ramo faz da montanha não é ele que faz -para quem vê a foto assim parece- mas sim a escolha do fotógrafo que faz.

A primeira das reflex digitais que tive, no ano de 2006 (antes durante dois anos comprara Fujis não reflex que tinham RAW e já fotografava em RAW -só fotografei em JPEG nos primeiros seis meses iniciais, comecei a fotografar em RAW em dezembro de 2003) foi uma Canon 300D, e porta de entrada para reflex digital e que comprei usada, e que é a cãmera desta foto. Pouco depois comprei a Mir 20M, lente russa manual sobre a qual já falei aqui e é a desta foto também. Deliciei-me com a visada dela. Este é um restaurante em São Pedro da Serra, restaurante que desde essa época, 2006, vou lá pelo menos uma vez quando estou na serra, pois lá não cozinhamos em casa, só comemos em restaurante e esse é o meu preferido pela comida maravilhosa e pelo ambiente que não parece o de um restaurante chique, mas nas várias mudanças sempre foi encantador e cuja comida é refinadíssima pelo passado da sua dona. Conheço a dona e as pessoas que lá trabalham, mas isso não muda em nada a forma como nos atendem, só gera cumprimento gentil e conversa gentil mas não dominante de estar lá. Naquela época, mais que hoje, esse restaurante era frequentado por pessoas que tocavam. A pessoa ia lá com violão e tocava, sequer a coisa era organizada, mas estava ganhando uma organização/constância com um grupo que também foi sensacional durante anos. Nesse dia havia esses dois que para lá levaram os instrumentos e tocavam maravilhosamente, nada banal, mas raro e sutil.

Sempre fotogafei lá com uma dose de impossível. Não é um lugar claro suficientemente para usarmos velocidades maiores nem ISOs menores. Não lembro de quanto nessa, mas lá fotografo de 1/15s a 1/20s no máximo quando de noite, e com a câmera na mão, a partir da própria mesa na qual estou jantando ou almoçando com pequenos deslocamento de posição para acertar o que na foto constará. Não me levanto escancaradamente para não tirar a naturalidade das cenas, posso até mudar de lugar mas muito sutilmente e sem fazer disso algo duro.

Esta foto é antes de tudo composição sobre a delicadeza da cena. A cena principal ao fundo completamente proporcional à horizontal da foto, a cena que junta ambiente e pessoas, não é só de pessoas, elas não são o completo assunto, o espaço também é. Isso dá um grande bucolismo à foto, não é só eles, é algo, um acontecimento que tem a delicadeza que o acontecimento ocorrido teve, aquela coisa espontânea e integrada ali e parcialmente assim sutil porque era ali, não redutível apenas ao que aconteceu. A mesa em primeiro plano, desfocada, não é a mesa na qual estávamos e sim uma entre nós, e é rigorosa na composição contribuindo muito para ela na criação da espacialidade e do jogo das linhas inclinadas. As inclinações dos lados dela vão para os cantos inferiores da fotografia. Ela, por isso, é desfocada mas é importante, sua presença ajuda a dar espacialidade ao ambiente que não se reduz a um plano como muitas vezes acontece numa fotografia, e o casamento das inclinações com os cantos que não é acaso, é mais decorrente de minha mania de construir imagens, embora nenhuma mesa tenha sido deslocada.
Essa mania de enquadrar inclinações é saber aproveitar aquilo que uma cena e os objetos presente possibilitam. É algo que mesmo nas minhas fotos é raro, haver casamento entre as inclinações de algo desfocado com o retângulo da foto, com os seus cantos. O desfocado é essencial à espacialidade desta foto.

Foi para mim uma cena mágica, uma ocorrência delicada de São Pedro da Serra que sempre foi local de ocorrências delicadas e que só agora, com mais turismo e gente mais comum, isso diminuiu. O ruim dessa foto é que, não lembro a razão, havia mudado a câmera para JPEG no dia -um tese qualquer, não lembro qual- de modo que esta série, da qual gosto muito, é em JPEG, lastimavelmente.

Um retrato. Não há muito o que dizer dele, mas tão somente a abordagem de retrato que uso, muito baseada na abordagem da pessoa. Este é um morador da Bocaina de lá (São Pedro da Serra), uma região que é fora da cidade mas junto dela, como se um bairro dela afastado do núcleo mas ao qual a ida e volta é geralmente com os morandores andando. Conversei com ele na estrada entre as duas e depois pedi para fotografá-lo. A fotografia obedece àquilo que busco na fotografia de pessoas, qual seja apresentá-las de forma justa e nunca caricata, mas, ao contrário, enfatizando a grandeza de cada uma. Provavelmente foi feita com uma 50mm e, pela data, com a Canon 300D. Gosto dessa foto, ela mostra bem ele, que é um morador da região que sempre vemos e que sempre quando com ele encontro converso algumas coisas breves. Como técnica é o costumeiro retrato com a 50mm toda aberta, lente luminosa f/1.4 ou então a Carl Zeiis 50mm f/2 (tenho três 50mm manuais), o que borra o fundo.

Panasonic Lumix LX1, igual à Leica digital portátil que era vendida com outro nome mas era igualzinha. Neste lugar, que é uma fábrica de tijolos hidráulicos, isto é, não cozinhados mas agregados com cimento ou outro aglutinante, moldados e deixados secar. O formato é esse mesmo, o formato do sensor. Esta foto e as demais desta série, todas dos mesmos temas, têm uma composição que para mim foi seu verdadeiro tema. As coisas estavam assim lá, mas a escolha do enquadramento colocando a borda do barril de terra fugindo exatamente no canto inferior esquerdo e com a sequência de carrinho e rampa de madeira conduzindo o olhar aos outos objetos de fundo, enquadrando de modo a nada aparecer do que se via além da terra, e ao mesmo tempo o caminho de entrada que é reverso à curva feita pelos objetos. Os objetos fazem uma curva de baixo para cima do canto inferior esquerdo para a parte superior direita, e o caminho do cento inferior direito para o cento da foto, quase num sentido oposto. Dessas três últimas é a que gosto mais porque tem uma estrutura muito forte, e nada ocasional, porém pensada. É estruturada claramente.

Uma fotozinha algo sem graça -risos. Tem lá seu jogo, foi feita com uma lente que se coloca aparafusada na frente de outra e isso tranforma o conjunto das duas em uma fisheye. Não dá nitidez boa, boa definição das coisas. É na minha sala lá em São Pedro também, e o que tem de bom é descrever os objetos e o espaço. Sua composição, portanto. Mas na minha opinião a cor está ruim, amarelada demais, e a descrição de tons dela, devido à má qualidade desta lente sobre a outra, é ruim, pobre.

***

Clique nas imagens para ampliar.

Todos os textos e todas as imagens aqui postadas são de autoria de (c) Ivan de Almeida, e estão proibidos de serem reproduzidos em sua totalidade ou parcialidade sem prévio aviso, e por escrito, do autor.
Parte da produção do autor pode ser encontrada, entre outros locais, nestes endereços:

1- Flickr.
2- Fotografia em palavras.
3- Multiply.

Obrigado por ler.

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13 comentários sobre “O olho do dono: Ivan de Almeida.

  1. Peri; como lhe disse por email, eu queria escrever um sinceríssimo agradecimento a você, um amigo ainda virtual mas verdadeiro e para esta amizade ambos somos sinceros. Por questão da minha situação atual, que você sabe qual é, há dias em que certas tarefas ou escolhas me impedem de responder com calma e bem. Logo depois de ter lhe respondido o acima isso vem acontecendo, pelas providências que estou precisando tomar e que me ocupam. Então lhe agradeço muito, lhe agradeço de forma muito sincera, e lhe digo que cada vez mais o que você vem fazendo a partir de sua relação com outros fotógrafos é gentil, útil, amigo.

    Um enorme abraço. Depois com calma vou rever o que escrevi, porque certas coisas eu melhoraria, e lhe falo, mas nesses dias não estou podendo fazer.

    Um grande abraço,
    Ivan

    • Bem … o que falar, Ivan?
      Certas coisas não precisam ser ditas e o que vem acontecendo em nossas vidas, seja a amizade, seja o reconhecimento e carinho mútuo, e seja tudo o mais, são inexplicáveis.
      Agradecimentos são mesmo desnecessários, e a vida tem sido generosa em certos aspectos conosco.
      Vamos apenas “ir indo”, sem cobranças, sem agradecimentos, sem responsabilidades maiores um para como outro, a não ser a deliciosa convivência, virtual ainda, mas que por breve tempo, assim espero, se tornará física e presencial.
      Saúde pra vc, um abraço sincero e um ‘agradecimento’ por vc ter “entrado na onda”.

      Peri.

  2. Uma aula de fotografia, e principalmente sobre olhar fotográfico ! Parabéns Peri, pela genial seção do teu blog, e parabéns Ivan pelos textos e pelas fotos e muito obrigado aos dois por compartilhar esses pequenos tesouros !

  3. Parabéns aos dois, ao Peri pela magnífica idéia e ao Ivan pela aula que nos foi dada de presente.

    Não é qualquer pessoa que dispõe-se a este tipo de texto, escrito com tanto esmero. Para mim, que ainda tento buscar um caminho, além de uma aula foi também um incentivo.

    Abçs
    Alexandre

    • Alexandre, eu já disse isto ao Ivan.
      Ele é de uma generosidade quando a agente começa a conversar sobre fotografia que pouco se vê.

      Um abraço, amigo, e obrigado pela presença aqui no blog.
      Peri.

    • Estamos todos envolvidos, Yubo-San.
      E este envolvimento gera certos compromissos.
      Um deles é o compartilhamento sincero do que a gente vê de interessante.

      Um grande abraço no amigo.
      Peri.

  4. Hildo, Alexandre, Paulo, Yuokumin;

    Agradeço imensamente a vocês. Desde 35 anos atrás, mais ou menos, venho tentando entender a forma como o homem organiza aquilo que está aos seus olhos e isso é sua percepção. Nossa percepção não é a percepção de tudo, uniformemente, mas sim uma percepção hierarquizada, pelo que, inclusive, varia com a cultura em que vivemos, porque a hieraquia é diferente em cada cultura. A mesma coisa na frente de pessoas de culturas muito diferentes é percebida diferentemente.

    Podemos, ao vermos uma foto nossa ou de outros, fazer uma análise de como a percebemos. Isso nos cria uma espécie de base, embora na hora de fotografar isso não possa ser tão analisado assim, pois o planejamento do resultado é mais um treinamento, esse sim orientado por esses pensamentos e compreensões quanto à nossa percepção.

    Na minha própria experiência do assunto, há uns cinco anos lembro-me que cada foto feita exigia-me uma análise, principalmente paisagens. Há tempo numa paisagem para análises minuciosas. Quanto mais fazemos assim, mais isso nos treina e torna mais rápidas as análises depois.

    É preciso lembrar, como exemplo, que o Bresson vinha de um aprendizado de pintura, ele trocou isso pela fotografia, isto é, nas artes visuais ele já era treinado em composição, em Número de Ouro ou outros proporcionamentos. Esses proporcionamentos não são “a sentimento” puro, mas sim com métodos. Ora, lendo seus escritos vemos que ele compunha a cena no visor e ficava esperando alguém passar por ela a completando. Ele não tirava a câmera do bolso para fotografias instantêneas como muitos imaginam -algumas podem ser, é claro, e todos nós as fazemos também- mas antes construía a composição da cena e depois esperava a cena ser preenchida, fazendo várias fotos da mesma cena e depois escolhendo a boa e não mostrando as outras.Seu saber de pintor (proporcinamento, etc) lhe permitia obter das cenas estética, seus olhos treinados disso (e não olhos espontânos como se acredita) lhe permitia chegar perto disso mesmo quando não compunha, e fazia várias fotos depois.

    Entendermos a hieraquia entre as coisas presente numa cena. Entender que uma figura humana grande olhando para uma casa distante é diferente de um homem olhando para uma casa quando em proporções outras, embora sejam os mesmos objetos. Que as proporções das coisas mudam o significado da fotografia.

    Para mim fotografar é uma atividade na qual vários dos meus interesses convergem. A compreensão sobre a percepção é uma delas, a compreensão sobre a relação dos tamanhos e significados outra. A estética treinada, que vem desde a arquitetura que estudei, idem. Qual o limite disso, de integramos compreensões -que também incluem a técnica fotográfica, é claro? Não sei, ao contrário, isso é para mim algo que me motiva, pois quero tanto fotografar quanto comprender.

    Abraços em todos.

  5. Peri, impressionante como você é um irrequieto… e como essa sua inquietação nos é salutar. “Eles” não sabem o que perderam. Mas, ainda bem, para o nosso bem, você continua pensando e fotografando maravilhosamente, e compartilhando seu talento com quem tiver juizo para aproveitar.

    Li e reli os textos do Ivan, vi e revi as fotos do Ivan, como se estivesse lendo uma poesia. Ivan, nesses novos tempos em sua vida tenho percebido que você tem se superado… Tem algo de novo em sua alma.

    Meu muito obrigado aos dois!!!!

    • Marcão,

      Eu ainda tenho fôlego e uma inquietação realmente, como vc bem diz.
      Isto acontece porque existem pessoas que dão um retorno positivo ao que a gente faz.
      Não é muita gente, mas é gente de qualidade suficiente, como vc, que nos motiva a continuar.
      O compartilhamento é apenas uma demonstração de carinho com estas pessoas.
      Fiquei bem feliz com tuas palavras.

      Um abraço.
      Peri.

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