Em foco: Rodrigo Fernando Pereira.

1- Rodrigo, fale um pouco de você e de suas atividades.
Se possível nos apresente uma foto sua para que possamos conhecê-lo melhor.

Meu nome é Rodrigo, tenho 33 anos, nasci e vivo em São Paulo. Atualmente, minha principal atividade profissional é a psicologia clínica. Passo a maior parte da semana atendendo em consultório. Também realizo um trabalho voluntário conduzindo um ambulatório para atendimento de crianças em São Bernardo do Campo. Ocasionalmente dou aulas em cursos de graduação, pós-graduação e especialização em psicologia e medicina.
Mantenho dois blogs: um relacionado à fotografia, o Câmara Obscura, no ar desde 2007; e o Vida Boa, com temas ligados à psicologia, iniciado em abril de 2013. Colaboro ainda com a moderação do BrFoto, um dos principais fóruns de fotografia do país.
As atividades não profissionais às quais me dedico são a fotografia, o tiro com arco, leitura e meditação.
IMGP0616

2- Voltando-nos à fotografia especificamente, de que forma atividades como o tiro com arco e a meditação a auxiliam?
E no caminho inverso, de que forma a fotografia o auxilia em suas atividades profissionais?

Alguns anos atrás, surgiu um interesse em filosofia oriental, por conta de algumas formas mais recentes de trabalho na psicologia que se inspiram muito nessas fontes. Comecei a ler e estudar, e o estudo se tornou prática, da meditação há mais tempo e do arco mais recentemente. Acredito que a partir disso houve uma mudança na forma que eu tinha de ver a fotografia. Ela se tornou mais contemplativa, mais pessoal, mais simples. Acho que deixei de buscar o extraordinário e passei a valorizar mais o ordinário. Outro reflexo desse movimento foi que me desfiz da maior parte do meu equipamento. Hoje estou apenas com uma compacta digital e uma reflex de filme.

Ainda não consegui encontrar uma forma de encaixar a fotografia de forma consistente nas atividades de consultório. Quando há por parte da pessoa atendida um interesse nessa área, ela pode ser uma ponte, uma via de troca e estabelecimento de vínculo, mas não vai além disso. fora desse contexto, uma das tentativas de unir a fotografia e a psicologia foi uma oficina recente que realizamos no Espaço f/508 de Fotografia, em Brasília, sobre fotografia contemplativa. Na oficina, falou-se pouco de fotografia, mas muito sobre percepção, sensação, experiência e consciência. Percebemos ali que existe espaço para aprofundar essa integração entre as duas áreas.

2.1 – Existe alguma correlação nestas atividades ou não?
E, na verdade, deveria haver?

Acho que as atividades têm em comum o fato de serem momentos de introspecção, concentração, de se voltar para dentro, de paz e silêncio. Mas isso tem a ver com uma certa forma de abordá-las, pois poderia não ser assim para outra pessoa.

3- Mas você acha que pode existir uma simbiose entre fotografia e suas atividades de consultório e o que se pode retirar de positivo em uma relação entre estas 2 atividades?

Por enquanto não vejo no consultório uma junção das duas coisas. Vejo mais fora dele. Mas acho que é viável, especialmente para profissionais que trabalham com arteterapia ou terapeutas ocupacionais. Nesse contexto, a fotografia pode ser uma forma de expressão, pode facilitar o diálogo e a maneira de lidar com as emoções e as dificuldades.

4- Há alguns anos eu acompanho, de longe, o trabalho desenvolvido pelo Humberto e pelo pessoal do Espaço f/508 de Fotografia, em Brasília-DF.

Gostaria que você explicasse um pouco a proposta do grupo, e como você se insere nas atividades que eles promovem.

Não sou porta-voz do f/508, então o que posso falar sobre eles é o meu ponto de vista e contar um pouco da história que temos em comum. O que me chama, e sempre chamou a atenção no f/508 é como a fotografia vai muito além do técnico e é encarada como arte, cultura, expressão, autoconhecimento. Conversando com os alunos que frequentam o espaço, vejo como as suas produções refletem suas trajetórias e suas questões. Dá pra ver como a alma deles está nos ensaios que criam durante os cursos. Acho isso muito legal, e, de quebra, esse resultado é obtido com alta qualidade estética.
Em 2007, quando o f/508 ainda era um fotoclube, entrei em contato com o Humberto justamente porque achava que a produção deles se diferenciava muito da de outros grupos de fotógrafos. Houve uma afinidade na maneira de ver a fotografia e nesse mesmo ano ele me convidou para um bate-papo, aproveitando que eu estaria em Brasília para um congresso de psicologia.
Em pouco tempo, o f/508 deixou de ser um fotoclube para ser um núcleo de pensamento imagético, mudou de sede, incorporou novas pessoas e ideias. A reputação do f/508 hoje é muito grande e acredito que ela é bastante merecida.
Em 2011, eles sugeriram uma oficina, que topei fazer. Chamamos de Fotografia: Desconstrução, Realidade e Interpretação. Partimos da visão de alguns pensadores como o Flusser e o Arlindo Machado para um trabalho de desvendar a ilusão fotográfica.
Já nesse ano (2013), partiu de mim uma ideia de falar sobre fotografia contemplativa. Para meu desespero, o Humberto concordou e deu todo o apoio necessário. E aí foi a primeira chance de juntar a psicologia com a fotografia, algo que eu não tinha encontrado muitos meios (ou talvez tivesse resistido) até o momento. Felizmente os participantes da oficina foram muito abertos e pudemos trabalhar juntos, com um resultado muito legal, envolvendo inclusive a produção de haicais (uma forma de poesia japonesa). Estava bastante inseguro em relação à proposta vingar, mas deu tudo certo e sou muito grato à disposição dos alunos.
5- Você acha que o perfil médio das pessoas que procuramo f/508 é diferenciado ou as pessoas se dão conta de que estão em um ambiente não tão “dentro da curva” só após a inclusão no espaço?
Pelo que eu vi quando estive por lá o perfil é variado. Desde o cara que compra uma câmera e quer aprender a fotografar como os estudantes de artes. Então é possível que as expectativas sejam diferentes. E isso talvez seja acomodado pelos diferentes níveis e focos dos cursos. Acho que essa diversidade deve ajudar a criar um ambiente que estimula a criatividade, junto com a atuação do Humberto. Ele estimula os alunos a saírem da zona de conforto, a olhar de forma diferente e a pensar a fotografia.
6- A partir da experiência que você teve nestes contatos com o f/508, que tipo de transformação você pode notar nos alunos, desde o momento que chegam até a conclusão de seus trabalhos/projetos?
Bom, as oficinas que fizemos tinham propostas que exigiam abertura por parte dos alunos. Na primeira, a ideia era fazer o contrário do que tentamos fazer quando fotografamos de forma convencional. Em vez de tentarmos reproduzir a realidade, a ideia era mostrar como a fotografia é uma mera interpretação da realidade. Na segunda, a ideia era usar a fotografia para registrar quase que um estado de espírito, uma forma diferenciada de perceber o mundo. Então, simplesmente topar a ideia das oficinas já representava uma transformação. Houve variações de pessoa para pessoa, claro, a partir do ponto em que partiam e o nível de aceitação que tinham das propostas. Mas todos caminharam na direção esperada, e isso pra mim foi bastante recompensador.

7- Você tocou num ponto interessante que é a mudança de sistema de fotografia.
Enquanto a maioria foca no upgrade de seus equipamentos, atualizando sistemas e adquirindo novos materiais, você vai no caminho inverso e reduz o seu, ficando como você mesmo disse, apenas com uma compacta e uma câmera de filme.
A que conclusão você chegou com esta mudança?

Acho que a redução do equipamento veio junto com uma mudança de estilo de vida, em que reduzi muitas outras coisas, como livros, roupas, eletrônicos… Numa tentativa de viver mais com o essencial. E na fotografia foi a mesma coisa. Eu não precisava de cinco ou seis câmeras. Depois vi que não precisava mais de uma reflex digital. Poderia até deixar de fazer algum tipo específico de foto, mas isso não compensava o “estorvo” de um monte de trambolhos para serem guardados, carregados, consertados. Associado a isso, percebi que poderia fazer a maior parte das fotos que já fazia usando uma compacta, ou até mesmo um celular. Depois dessa mudança, confirmei a hipótese de que eu precisava de muito menos do que eu achava. Não sinto falta, pois procuro pensar naquilo que eu posso fazer com o que tenho em mãos, e não no que poderia fazer se tivesse um outro equipamento.

8- Gostaria que você mostrasse algumas imagens desta nova fase e nos dissesse o porquê delas não necessariamente serem “piores” por terem sido feitas com uma compacta.

Das três fotos que estou mandando, duas foram feitas com a compacta (as dos prédios) e uma com celular (a do avião). As três fotos remetem a momentos significativos para mim. Foram momentos que eu simplesmente vivi, fotografei e voltei a viver. Acredito que as três tem uma qualidade aceitável, jogam com a percepção da luz e das sombras e poderiam ter sido feitas com qualquer equipamento. Só que se eu estivesse com uma máquina muito grande, muito chamativa, muito avançada, ela provavelmente teria me atrapalhado.

Rodrigo F Pereira

Rodrigo F Pereira

Rodrigo F Pereira

9- Rodrigo, a gente se conhece desde o tempo do DigiForum, já faz bastante tempo.
Lá você foi responsável por algumas seções se não me engano, fizemos a reformulação de outras seções junto com outras pessoas num Brainstorm que teve a participação do Eduardo Buscariolli, do Hinotori (estes são os que me lembro agora).
Depois você saiu de lá e eu fiquei mais alguns anos, e então você veio para o BrFoto e participa hoje da Moderação.

Que diferenças você percebe entre estes 2 fóruns, que são considerados junto com o Mundo Fotográfico os maiores do Brasil?

O Digifórum teve um momento bem legal, na época do boom da fotografia digital, com todo mundo voltando a fotografar, falando de fotografia, comprando equipamento. Lá havia várias pessoas interessantes, como as que você mencionou. Lembro que pensamos em criar alguns conteúdos para estimular uma conversa sobre o lado mais teórico e artístico da fotografia. Funcionou por um tempo, houve uma boa participação, debates interessantes e conheci pessoalmente muitas das pessoas de lá.
Hoje não participo mais do Digifórum, reclamei de algumas coisas de lá e eles me retaliaram, eu por minha vez apaguei o conteúdo com o qual havia contribuído com o fórum e eles por sua vez me baniram. Uma briga boba de internet, poderia ser evitado, mas na época os egos de todos falaram mais alto.
Vejo um pouco o Mundo Fotográfico, parece ter um movimento bom lá, e se fala bastante de equipamento. Acho que é natural, é mais frequente falarmos do que é mais concreto e palpável. No BrFoto não sei sobre o que se fala… rs. Acho legal que por lá se fala comparativamente bem pouco sobre equipamento e por vez ou outra tem algumas conversas interessantes ainda sobre fotografia, mesmo que ele esteja acompanhando o declínio de movimento pelo qual todos os fóruns passam. Os fóruns são uma plataforma bem interessante, onde é possível ter conversas aprofundadas, mas estão se tornando obsoletos por conta do desejo pela informação cada vez mais rápida, curta e mastigada.

10- Qual a influência e importância tem um fórum na formação das pessoas envolvidas na fotografia?

 Como você observa e percebe a movimentação de plataformas como o Facebook e o Instagram em prol da fotografia?

É um movimento interessante de observar. Antes, a fotografia, como praticada pela maior parte das pessoas, tinha como função produzir uma forma de recordar um evento. Olhávamos os álbuns de fotografia e lembrávamos das festas, dos casamentos, das viagens, das pessoas. Hoje, com a internet, as redes sociais e a informação viajando de forma praticamente instantânea, a fotografia nessas plataformas se tornou muito mais uma forma de comunicação. Quando se postam fotografias no Facebook ou no Instagram, as pessoas estão dizendo: “estou fazendo isso”, “gosto disso”, “estou nesse lugar”. A fotografia parece hoje algo muito mais instantâneo, tanto na sua produção como na recepção e, consequentemente, mais descartável, justamente o contrário de antigamente, em que o tempo passava mais a fotografia ficava. A fotografia, como qualquer outra atividade humana, vai mudando de caráter conforme as características da sociedade se alteram.

11- Você acha que esta efemeridade está relegando a fotografia a um segundo plano no sentido de que as produções tem se transformado em algo de menor valor qualitativo e de maior valor quantitativo?

Acho difícil fazer essa análise, pois como é que podemos estabelecer o valor de uma fotografia? As fotografias feitas no dia a dia têm valor afetivo por parte de quem as fez. Parece ter havido uma mudança na função da fotografia, e na verdade hoje ela parece estar mais em primeiro plano do que nunca, já que todo mundo fotografa cada vez mais. Talvez o problema seja enxergarmos a fotografia como uma coisa isolada, quando na verdade ela é uma atividade humana, que faz parte do nosso cotidiano. Não há fotografia sem alguém que fotografa. Sendo assim, não dá pra falar muito de valor, que é algo subjetivo, mas sim da sua função e do seu papel.

12- E, a fotografia no mundo atual com toda esta velocidade tem deixado de ser “obra” para ser mera produção visual sem um aprofundamento adequado?

Essa é uma pergunta interessante. Penso que ninguém é obrigado a saber fotografar, do mesmo jeito que ninguém é obrigado a saber preparar um suflê. Quem quiser se aprofundar em um desses assuntos pode ir fazer um curso de fotografia ou de culinária, mas quem não quiser pode simplesmente fotografar no celular (em que o aparelho toma as decisões técnicas para a pessoa) ou ir a um restaurante (em que o cozinheiro prepara o suflê para a pessoa). Não acho que exista um jeito certo ou adequado de produzir fotografias. Todos os jeitos são válidos, porque partem da função que a fotografia tem para cada pessoa. Pode apenas ser o de mostrar um momento como pode ser um hobby, um objeto de estudo ou um trabalho. Cada pessoa pode encará-la da forma que quiser e seria estranho dizer que uma é melhor do que a outra, ou que uma é mais adequada do que a outra. Se a fotografia cumpriu a função que tinha para a pessoa que a fez ou que a viu, ela é válida.

13- Olho sua produção e vejo fotografias onde, me parece, a busca pelo conceitual é mais forte do que a produção que a gente é acostumado a ver, de fotografias onde a representação real do mundo é mais presente.
Isto é uma percepção verdadeira?
Há de fato esta busca, ou preferência, por caminhos mais conceituais e, porque não, subversivos?

Peri, acho que é uma boa percepção sim. Talvez eu chamasse de impressão, mais do que conceito. Pois na verdade o que todos nós queremos quando fotografamos é expressar uma determinada percepção de um momento. E aí procuro incorporar nas fotos algo ligado a essa impressão, como ao fazer duplas exposições da cidade como uma percepção da sensação avassaladora da vida na metrópole. Nos retratos, fotografo bem de perto, com pouca profundidade de campo, que reflete a impressão da proximidade que tenho naquele momento com a pessoa. Pode ser considerado subversivo se a gente parte do princípio que a fotografia é uma cópia da realidade e deve ser feita de uma determinada maneira. Mas se entendemos que a fotografia não é a realidade, então não faz sentido pensarmos em limitações em relação a como ela deve ser, do mesmo jeito que não impomos essas restrições à pintura, por exemplo. Mas acho que nem todas as minhas fotos são subversivas tecnicamente. Quando vou para a linha da fotografia contemplativa, elas até que são certinhas… rs. Mas aí talvez elas incomodem por parecerem banais demais para quem vê. E na verdade a ideia é justamente essa, a beleza do simples, do ordinário, do banal. Eu me encanto com tudo.

14- Desde que acompanho seu Blog vejo sempre ótimas fotografias que você usa como exemplo para seus artigos.
Quem te inspira, Rodrigo?

Acho que metade da satisfação que tenho em elaborar um artigo está em procurar a imagem que irá ilustrá-lo. Nem sempre as fotos têm a ver com o texto. São exemplos do que considero boas fotografias, simplesmente. Sou capaz de ficar horas navegando pelo Flickr ou outros sites de postagem de fotos, admirando os trabalhos existentes ali. E é de lá que vem a inspiração, dessa multidão de anônimos, como você e eu, que nos permitem ver um pequeno recorte de suas vidas, e que compartilham conosco trabalhos tão interessantes. Não saberia dizer um nome específico… Gosto de ver as fotos até sem saber quem fez, do mesmo jeito que gosto de ouvir um concerto sem saber de quem é a peça ou entrar no cinema pra ver um filme sem saber nada sobre a história. Gosto desse contato direto, desse mergulho nas artes sem informação, sem nomes, só a percepção pura.

15- Seguindo este pensamento de contemplação e percepção, quais você considera suas melhores imagens, que cumpriram plenamente sua busca, e que você se orgulha de ter feito-as?

É difícil fazer uma seleção. Não sei se houve alguma foto que fiz que tenha cumprido plenamente o que buscava. Acho que costumo dar mais atenção às séries do que a fotos isoladas. Gosto mais de alguns conjuntos que produzi do que de uma ou outra imagem específica. Mas selecionei algumas que representam bem algumas dessas produções.

Rodrigo F Pereira

Rodrigo F Pereira

Rodrigo F Pereira

Rodrigo F Pereira

Rodrigo F Pereira

Rodrigo F Pereira

16 – Inclusive você resgatou 3 projetos de slides musicados que fez, e postou para a comunidade do BrFoto ver e apreciar.
Particularmente eu gostei de todos eles e achei que você teve um feeling ótimo na escolha da seleção musical que fizeram parte dos slides.
Fale um pouco sobre eles e sobre suas pretensões quando elabora um trabalho desta natureza.
Se quiser postar os links para cada um deles fique à vontade.

Obrigado. Os três slideshows podem ser vistos nos seguintes links:
1- quase certo.
2- passagens.
3- tênues.
Acho que eles ilustram bem isso de produzir em conjunto, mais do que fotos isoladas. O processo de escolha das músicas foi tão difícil quanto fazer as fotos. É um negócio estranho porque ao mesmo tempo se sabe e não se sabe o que está procurando, então não tem outro jeito a não ser ouvir dezenas de trilhas, até achar aquela que dá o clique. Acho que esses trabalhos conseguem, por juntar imagem, transição e som, chegar mais perto da “impressão” que é o que me move a produzi-los.
“Quase certo” foi a primeira tentativa, mais experimental, que pela despretensão talvez tenha funcionado. “Passagens” foi a mais séria, mais difícil de fazer… Gosto das fotos, mas não sei se tanto do slideshow, porque foi concebida para ser uma série de fotos individuais mesmo, ao contrário dos outros, que já foram pensados no formado de apresentação. Acho que o “Tênues” é o mais bem resolvido e pensado, com a transição do dia pra noite, algo como uma trajetória.
17- A medida que foram sendo feitos houveram “ajustes”, como se um fosse evolução do slideshow anterior?
Você percebeu que isto vinha se formando ou os projetos, mesmo que sem correlação entre si, não se beneficiaram e não se influenciaram um nos/um dos outros?
Acho que sim, tanto que o último que eu fiz pareceu o mais bem resolvido, enquanto o primeiro foi apenas uma experimentação. Mas isso tem mais a ver com o domínio do formato do que com o conteúdo. A questão do ritmo, da trilha, as transições. Além disso, os três foram feitos num curto espaço de tempo, então o aprendizado de um para outro foi algo presente sim.
18- Rodrigo, há alguns anos atrás você licenciou sua produção, ou parte dela, sob a licença “Creative Commons”.
Por que esta decisão?
O que você pensa a respeito de toda esta celeuma em torno de direito de imagem, direitos autorais sobre obras produzidas e afins?
Boa pergunta, Peri. Eu tomei essa decisão porque penso que a cultura é uma criação coletiva. Não dá pra criar nada sem usar elementos já existentes (como, por exemplo, a linguagem). Acredito que aquilo que produzo é resultado de todas as influências culturais que recebi. Como posso achar que tenho posse sobre isso? Não consigo ter essa relação de posse com as fotos que faço ou os textos que escrevo. Não sinto que há nada “meu” no que faço, o que chamo de “meu” é a soma de tudo que veio de fora e se configurou dessa maneira particular em mim. Tive o privilégio de receber muito e o mínimo que posso fazer é dar de volta. Talvez haja aí também uma influência do fato de eu ter passado 10 anos trabalhando com pesquisa científica numa universidade pública. A gente sempre lembrava que éramos financiados pelo dinheiro público, então nosso papel era devolver o conhecimento que produzíamos para a sociedade.
Justamente por conta dessa visão acho estranho o conceito de direito autoral. Claro, as pessoas devem receber por aquilo que produzem e não é justo copiar algo feito por outro e falar que é seu. Mas esse conceito de posse individual sobre algo que parece essencialmente coletivo é estranho. E há direitos conflitantes, como o direito autoral e o direito de imagem. Muitos fotógrafos são muito zelosos com os direitos autorais de suas fotos, mas na mesma medida são desrespeitosos com o direito de imagem de outros. A questão é complicada, pois envolve a liberdade de criação artística e de expressão. Não sei qual seria a solução para isso.
19- Nestes termos em que hipótese há uma negativa de sua parte de uso de material produzido por você?
Em que condição você negaria o uso de sua obra?
Ou então cobraria pelo uso dela?
A princípio, nos casos de uso comercial, pois o ganho individual iria contra a ideia de criação coletiva que está por trás da licença aberta. Mas mesmo assim talvez dependa do caso. Hoje eu dificilmente cobraria pelo uso de algo cultural que eu tenha produzido.
20- Rodrigo, para terminar, uma pergunta final: O que é e o que significa a fotografia para você?
Acho que as fotografias dizem algo sobre nós. Quando vejo as que fiz, elas me contam algo sobre mim. Quando vejo as dos outros, elas me contam sobre quem as fez. Por isso a fotografia é fantástica, ela nos permite ver um pequeno pedaço da vida das pessoas, da forma como elas viram. Essa possibilidade de ver com os olhos do outro que a fotografia nos dá é muito preciosa.
Já que estamos terminando, gostaria de agradecê-lo publicamente pelo convite e pela conversa. Fiquei impressionando com a forma como você conduziu a entrevista, com perguntas de fato voltadas para o percurso que trilhei na fotografia. Mostra abertura, dedicação e interesse genuínos, ao mesmo tempo em que propicia um papo muito agradável. Gostei bastante de ter tido essa oportunidade.
21- Bem, Rodrigo, acho que tocamos em pontos importantes nesta conversa, que viajou desde o simples ato da fotografia pura e plena até questões complexas como direitos de imagem e compartilhamento de conteúdo autoral.
Só tenho a te agradecer o tempo dispensado e dizer que, para mim, foi uma das melhores entrevistas que fiz, pela maneira com que você aborda os assuntos, sempre de forma muito lúcida e inteligente.
Há algo a mais que você gostaria de acrescentar?Algo que não foi dito ou que achas importante falar?
Fique à vontade, o espaço final é todo seu.
Acho que não, apenas agradecer mais uma vez a oportunidade de uma boa conversa. Pelo forma como você conduziu pude olhar de uma forma interessante para a trajetória que percorri até agora, as mudanças, as diferentes perspectivas, as opiniões. Foi um exercício muito interessante, e espero que seja interessante também para os seus leitores. Obrigado.
Na verdade será interessante para os nossos leitores, é claro.
Mais uma vez muito obrigado pela oportunidade.
Um grande abraço.
***
Obrigado por ver.
As imagens mostradas nesta entrevistas são de propriedade exclusiva de Rodrigo Fernando Pereira, assim como os vídeos a que se referem os links dos projetos “quase certo”, “passagens” e “tênues”.
Desta forma estão proibidos de serem reproduzidos sem autorização escrita do autor, ou a seu critério, sob pena dos responsáveis serem enquadrados nas leis de direitos autorais vigentes no país.
Anúncios

8 comentários sobre “Em foco: Rodrigo Fernando Pereira.

  1. Obrigado pela entrevista.

    Algumas considerações:
    1. Não seria interessante colocar as entrevistas em um blog (ex.: a do trotatorres no peridapituba).
    2. Achei as fontes das perguntas e respostas muito parecidas, o que dificulta um pouco a leitura.

    Abraço.

    • A entrevista do Leonardo está no blog “peridapituba” porque inicialmente era lá que elas eram feitas.
      Depois de um tempo eu resolvi separar o conteúdo dos blogs “peridapituba” e “Frame.” de maneira a organizar o conteúdo.
      As novas entrevistas começaram a ser publicadas aqui então.

      Obrigado pela visita, Guaracy.

      Abraços.

  2. Muito legal Peri… é interessante ver como a psicologia parece ser parte inseparável da fotografia do Rodrigo. Foi um papo muito legal de “espiar”, vou ter que revisitar em breve!!! Parabéns aos dois.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s